Descoberto no Côa o maior painel de arte rupestre ao ar livre


Foto de Miguel Pereira da Silva | Lusa

Recentemente, maio de 2021, no Vale do Côa, a cinquenta metros do rio, foi descoberta a maior gravura de arte rupestre ao ar livre. O Painel tem cerca de 10 metros e encontra-se no sítio do Fariseu, bem próximo da cidade de Vila Nova de Foz Côa. Este painel já tinha sido percecionado, todavia agora que o caudal da albufeira do Pocinho baixou durante três dias a sua grandeza veio completamente ao de cima.


Os trabalhos, na peugada deste achado, já tinham começado em abril do ano passado, contudo a pandemia obrigou à paragem dos mesmos. Agora, em maio deste ano, foi possível redesenhar toda esta descoberta.


A gravura representa um auroque, um boi selvagem, autóctone desta região de outrora, sendo a mesma datada do paleolítico superior. Este trabalho iniciou-se há 25 anos, e em toda a região existem mais de 80 sítios com gravuras elaboradas há cerca de 30 000 anos. A grandeza deste fenómeno artístico é de uma relevância categórica, tendo em conta que tínhamos surgido como humanos há muito pouco tempo.


O investigador Thierry Aubry diz assim sobre a maravilha desta obra de arte:


“Ao contrário das outras rochas, temos muitas fêmeas de auroque que caminham em sentido diferente do grande auroque macho, ou seja, em direcção ao leito do rio Côa. Ficamos com [a impressão de] que estamos num desenho animado datado do Paleolítico Superior.”

Hoje, nós que visitamos o Louvre ficamos a olhar estupefactos para aquelas magnificas obras de arte. E são milhares e milhares de pessoas que se posicionam perante o quadro minúsculo da Mona Lisa de Leonardo da Vinci. Boquiabertas admiram a beleza de tamanhã conceção!



Sem querer tirar valor a este grande artista, quantos Leonardo(s) da Vinci(s) não se terão posicionado com sentido estético no vale do Côa quando esta humanidade estava no início de si? Imaginemos a audácia que não foi necessária para construir um painel com dez metros na época. Quão grande foi a noção de espaço, o sentido estético, a geometria do lugar, as técnicas inventadas e o olhar ao longe para abarcar a obra com a finalidade de si mesma. 10 metros, é bom não esquecer. Este deve ser o foco do nosso espanto, pois que é incomensurável a relação de grandeza dos artistas que aqui se posicionaram na vida e para a vida.


Deixo o seguinte poema sobre toda esta estrutura primeira do Homem do Vale do Côa alusiva ao momento primeiro da conceção desta obra:

No Sentido Estético do Mundo

Nos tempos de outrora


No início do racional em nós,

Algo de fantástico se levantou

E ali estava um homem de cabeça erguida

Numa posição introspetiva, estupefacto,

Que pensava para consigo mesmo:

“Acabados de acordar para esta realidade da vida

Que agora se perfila nos circuitos do nosso pensar

Olhamos em frente, bem em frente,

No defronte que em nossos olhos se agiganta,

E vemos o mundo e não sabemos o que fazer…

Sim, o que fazer perante esta realidade estranha

Que nos circunda a perceção do nosso ser?

Estamos assim… meios sós, um pouco perdidos,

E tentamos compreender tudo isto, tentamos compreender…

Mas… não é fácil, nada é fácil…

Não temos noção do passado, não sei, não nos lembramos,

A memória parece que acabou de despertar,

Estamos um pouco… como que perdidos, atónitos,

Mas sei que nos visionamos no sincrético da paisagem

Que nos oferece guarida, paz, deslumbramento e encanto…

E nós revestimo-nos de algo que acredita,

de algo que nos impele a ir em frente.

Começar, continuar, continuar, recomeçar...

Não sei como devemos chamar a esta atitude

Mas, talvez o sonho, talvez o sonho, o sonho de ir em frente!

Porém, olhamos em redor e sinceramente não sabemos o que fazer.

Pouco ou nada compreendemos de tudo isto.

Nós somos alguns, poucos, ainda que possamos parecer muitos.

E lá vamos nós no calcorrear do caminho…

Devagar, mas vamos, temos a noção agora de que vamos.

Sim, vamos e somos, e em nós instala-se a inquietação do momento,

E questionamos o que deveremos fazer,

O porquê de tudo isto, mesmo sem saber o que isto é

Para que o sentido se faça no olhar com que vemos o mundo.

Em redor, ali bem próximo, uns poucos bois de porte relevante

Alimentam-se e passeiam-se no idílico da paisagem

Que em nossos olhos resplandece vida,

Ainda que pouco saibamos o que a vida seja.

Como nada sabemos do que se passa

Ainda que já vivenciemos o mundo

Na aprendizagem falada

Da linguagem que discursa e compreende

No entendimento que pergunta

Na perceção do olhar

Ficamos quedos e olhamos para aquilo tudo

E não sabemos por onde começar...

Esses animais são nossos companheiros de percurso, sim,

Mas… procuramos em nós um sentido coletivo e nada, nada…

Contudo, num acordar repentino de sentido

Para o sentido com que não o tínhamos do mundo

Eis que uma ideia genial começava a ecoar na nossa cabeça.

No rodopiar por onde o entusiasmo nos envolvia

Ouvíamos no nosso interior uma chama viva que dizia:

«Desenhar, estilizar, gravar,

Gravar os companheiros do mundo

Num destino que sequer sabemos por que existe...»

Desenhar, estilizar, gravar, mas como?

O que isso era e como o fazer?

De qualquer modo parecia uma boa ideia,

Sim, era uma boa ideia,

Era uma saída para o continuar da vida, mas…

Rapidamente a partilhamos

E começamos a procurar a forma de a pôr em prática,

De representar esses nossos companheiros do mundo.

Era um motivo de vida, sei lá…um sonho de acrescentar algo

Ao que ainda antes não eramos!

Convocamos então uma reunião de pares entre pares

E de todos os cantos do Vale muitos surgiram.

E num assentar circunspecto, inusitado,

Começamos a entender por onde teríamos de continuar.

E num entusiamo profundo corremos pela planície

E ousamos ser no artista com que começamos a ser.

Depois, com a acutilância do olhar, observar,

Começamos a riscar, a riscar nas rochas

Com umas pedras que ali tínhamos à mão

E que aprimoramos depois.

E gravamos a nossa consciência num outro olhar

Num outro compreender que nos fazia parar,

Olhar, voltar a observar, sorrir e fazer.

E ali estavam um boi enorme na nossa frente

E suas companheiras de percurso…

Ele virado para cima

E elas no sentido por onde o rio corria.

A tarefa era árdua, mas tínhamos vontade, queríamos fazer,

Ainda que não soubéssemos como fazer,

Mas tínhamos de tentar.

Queríamos fazer uma gravura à medida do nosso olhar

E então, depois de muito procurar, de muito experimentar,

Ali estava uma rocha para o que pretendíamos fazer.

O penedo era grande, enorme, maior do que todos nós,

E aos poucos começamos, começamos, começamos e fizemos…

À medida que a obra crescia e se realizava

Tínhamos orgulho dela e…

Não sabíamos sequer o que pensar,

Nem o porquê de tudo aquilo,

Mas era a nossa vontade que sequer sabíamos de onde viera.

Usávamos o que guardávamos na memória

Pois a paisagem mudava a cada instante que surgia.

Sorriamos, olhávamos uns para os outros e sorriamos…

Acreditamos em nós e fizemos!

Quem dera que todas as criações dos homens

Fossem este singelo quadro com que acrescentamos vida ao mundo.

Mais tarde, no coração por onde a tarde já ia tarde,

Por onde o sol amaina e aquieta esta vontade nobre de sonhar,

Sentados em redor da fogueira que nos aquecia a alma,

O corpo, o pensar e o sossegar

Pensávamos se… no futuro, se futuro houvesse, nos dariam valor,

Se os vindouros olhariam para nós

No idílico do sonho por onde vale a pena sonhar.

E adentrando neste pensar…

Após um olhar para as estrelas que pendiam no enigmático do céu…

Era já noite… e nesse dia em que a obra foi concluída

Sonhamos com o amanhã num resguardo de saudade.

Rui Fonseca Porto, 27 de maio de 2021

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