Nas Reentrâncias do Côa – Um Farol de Humanidade

Há muito tempo lá atrás, na história por onde o Sapiens se começava a afirmar além da animalidade que apenas o caracterizava, surgiu um mecanismo de admoestação, um princípio castrador que afinal lhe deu asas, mas tal só aconteceu pela necessidade que outros tinham dele para lhes suportarem a vida.

Vale do Côa
Foto: Vale do Côa por Joana Mafalda Gomes

Há muito tempo lá atrás, na história por onde o Sapiens se começava a afirmar além da animalidade que apenas o caracterizava, surgiu um mecanismo de admoestação, um princípio castrador que afinal lhe deu asas, mas tal só aconteceu pela necessidade que outros tinham dele para lhes suportarem a vida.


Assim, ainda que o Homo Sapiens tenha chegado até nós com laivos repletos de animalidade, aos poucos, começou a afirmar-se como o autóctone deste burgo, o ser que melhor patenteava e caracterizava a vida no planeta. Talvez não representasse nada para os outros seres que aqui há muito tinham firmado os seus pés no intuito de se acharem senhores disto tudo, pois, infelizmente, assim acontecia na dinâmica da vida que por aqui flui, ainda que a mesma não seja muito diferente por esses mundos fora.


Todavia, o seu perfil adaptado à estrutura do planeta, de um ser relativamente baixo, de porte franzino, mas ágil e inquieto, começava a fazer com que os olhares alheios recaíssem sobre ele. Os ditos seres com estatuto cósmico, de um poder incomensurável que aqui grampeavam a bel prazer tudo o que lhes desse o que necessitavam, deram conta da lentidão dos seus próprios passos e um dia pensaram como lhes poderiam ser úteis os animais que por aqui percorriam os caminhos aflitos da vida que eles nem sequer entendiam, já que não tinham muito mais que a sensibilidade que os outros animais apresentam. Tinham, contudo, uma característica ímpar, eram dóceis e isso talvez lhes permitisse o uso para a transformação que os senhores poderosos Anunnaki necessitavam. Assim, várias transformações genéticas foram introduzidas no Sapiens para que ele entendesse o seu senhor e o servisse como escravo. Até o dom do entendimento da fala lhes foi introduzido no código genético para que o trabalho fosse mais profícuo.


Coitado do sapiens na mão destes mandadores de uma vida que não sabiam respeitar, ainda que um ou outro se apegasse a ele e o tivesse “amado”. O entendimento da liberdade e o respeito pelos outros nunca se afigurou nos seres que tinham até então surgido no universo, e a dúvida desta questão ainda se mantém pertinente nos dias de hoje. Se nós mudamos a cada fração de segundo, eles levam uma eternidade para nada conseguirem mudar. Como tudo isto é triste. Bom, se ao menos ainda fosse um fado digno desse nome da língua lusitana, então poderiam rolar umas lágrimas, que ainda assim, no âmbito da sonoridade da música seria bonito de se ver.


Por uma razão de migração, este Sapiens chegou à Península Ibérica há cerca de 40 000 anos, momento em que no planeta outra força política começava a grampear também, a bel prazer, outras necessidades menos elevadas. Eram os senhores que vieram a ser conhecidos como Olimpianos.


Assim, pelo Vale do Côa, hoje nordeste das terras que pertencem a Portugal, os irmãos Titãs, Prometeu e Epimeteu começavam a sonhar com um outro entendimento de vida, mais arguto e perspicaz, mais livre e ousado, capaz de dar um salto para que no futuro algo de menos déspota e esquisito na determinação da razão e da vontade surgisse, que fosse diferente de tudo o que até então existia. E olhavam para estes animais ainda não infantilizados e sonhavam que talvez eles pudessem vir a ser o sonho de algo diferente, mais sério, e que lograssem vir a ser o cursor da mudança de tudo o que havia ou existia. Há assim sonhos, e nada melhor do que o sonho para que no devir algo de diferente possa vir a ser, a plasmar-se na realidade que com que o sonho fica impregnado. Porém, tudo estava longe do que pudesse vir a ser, até porque jamais o devir se afigura como elemento conhecido de uma causa ou projeto. Ele concebe-se, mas, depois, tudo, nada, ou alguma coisa pode acontecer.


Por essa altura já tinham ocorrido as lutas entre Zeus e o seu pai Cronos, e os Titãs, Prometeu e Epimeteu, já estavam longe dos senhores do Olimpo, até porque as desavenças de postura há muito os tinham relegado para a solidão dos seus dias.


Prometeu, um hábil pensador, um intelecto brilhante, começou a não aturar a força bruta de Zeus e a sua esquisitice falhada no campo da intelectualidade. Por isso, só um caminho o movia, sair para bem longe onde um outro sonho pudesse vir à tona dos dias futuros.


No Vale do Côa, local de um paraíso inebriante, onde tudo era perfeito para o momento, onde a paisagem acolhia aqueles animais atónitos que apenas olhavam ainda estupefactos para a dimensão da vida, tudo era calmo e os irmãos Titãs engendravam poções xamânicas que pudessem dar um novo fruto à árvore por onde a vida poderia surgir melhor.


Todavia o tempo passava e nada alterava o ritmo de apagamento do Sapiens que tinha vindo do Médio Oriente. Dóceis, neste ambiente fantástico de paz e liberdade, viviam, mas não iam além do companheirismo com que se moviam no tempo entre o idílico de um espaço acolhedor.


Pandora e Atena, de quando em vez, visitavam os irmãos Titãs e davam conta das suas tentativas de modelação genética para alcançar um outro tipo de ser, onde a razão despoletasse entre um grito de coragem e ousadia para sempre. Mas, nada acontecia para além da tentativa com que o sonho de Prometeu se erguia entre as árvores e os montes que por ali se levantavam na liberdade da vida.


Porém, a ousadia intelectual de Prometeu e a sua Independência face a Zeus começava a urdir teias de uma tragédia encenada na mente do senhor do Olimpo. Este pensou, pensou e decidiu entregar Pandora, sua filha, a Epimeteu como dote de casamento. Claro que, em função do poder de Zeus, Epimeteu jamais ira contrariar a ordem do senhor do Olimpo.


Mas no embrulho deste presente estava um laço envenenado, pois antes da entrega, Zeus alterara o campo morfogenético da sua filha que ele não amava pois era sentimento que não fazia parte do seu modo de ser e estar. Zeus pedira então aos seus companheiros do Olimpo para cada um engendrar uma mutação para transformarem o ser de Pandora, mas a mesma tinha de ser erguida sob a alçada de uma bomba-relógio altamente armadilhada. Talvez nem todos tenham obedecido categoricamente a Zeus pois alguns tinham uma afeição especial por Pandora. Todavia coube ao engenheiro genético Hefesto a última palavra na transformação de Pandora. Contudo, Hefesto tinha a característica da evasão intelectual, tal como todos os cientistas que se dispersam da vida e se concentram no que têm de fazer. Então, quando a ordem lhe foi repassada para colocar o detonador na bomba com que Pandora estava a ser urdida, Hefesto estava tão longe no vogar do seu pensamento que nada ouviu, e quando Zeus o chamou à atenção e lhe disse para fazer o que ele tinha dito, Hefesto cumpriu a sua melhor vontade para com o seu chefe, pois que, sendo Pandora sua filha, munia-a com a melhor qualidade que lhe poderia dar. Então possibilitou-lhe ser o que ela quisesse vir a ser.


Assim, quando o casamento se consumou e ela se aproximou dos Sapiens que por ali andavam, no Vale aprazível do Côa que hoje conhecemos, ela passou a sentir um sentimento de amor e pertença a esses seres que jamais os abandonou. E tanto os amou que decidiu ser uma entre pares, a primeira mulher a ser digna desse nome. Pandora virou humana e amou aqueles seres como ninguém jamais o fez.


Prometeu que assistia aquela transformação de Pandora passou a confiar nela e a acreditar no seu sonho de criar um ser que, no futuro, pudesse vir a ser condição excelsa de ser.


Então, o sonho de Prometeu passou a ser também o sonho de Pandora e, ambos, juntamente com o Epimeteu ausente, começaram a engendrar poções e mais poções que viessem a dar um resultado eficaz nas sinapses neuronais do cérebro do macho mais evoluído que por ali se passeava pachorrento.

Prometeu pediu então a Pandora para servir de exemplo e educadora daquele ser, pois era sobre ele que tinha de se criar o futuro.


E Pandora, todos os dias, abeirava-se dele e ensinava-o e falava-lhe para que ele aprendesse a falar. Todos os dias ela ministrava-lhe a sapiência da primeira escola livre na tenacidade da vida. A mesma tinha surgido ali, onde hoje é Vale do Côa, nas terras de Portugal.


E depois de tanto tentar, de tantos bons dias sorridentes entre Pandora e este Sapiens, ela, um dia, ao abeirar-se dele, e sem que ela lhe estendesse o olá costumeiro e rotineiro de todos os dias, ouviu o Sapiens, agora já Sapiens, Sapiens, dizer-lhe: Olá!


Faço ideia o abraço e as lágrimas de contentamento que choravam em convulsão com que Pandora lavou o rosto de uma humanidade que começava a perfilar-se livre para a liberdade da vida.


A liberdade das mãos, o desocupado de um emprego já ido, e talvez o ensino com que Atena tenha também auxiliado estes seres, começava a dar frutos, o que se expressou nas gravuras rupestres por onde a vida começou a manifestar-se na liberdade do ser, na estética da vida. Pela primeira vez, numa extensão enorme de terreno, uma escola de artistas deu asas ao sonho e, ainda que pequeninos, eles foram os primeiros seres livres deste universo. Assim, nos tornamos humanos, uma conquista que jamais iremos deixar de ter.


E deste modo se começaram a dar os primeiros passos na linguagem com que a Humanidade se passaria a expressar. A linguagem do que viria a ser e a Língua Portuguesa Lusitana, revestida do sonho com futuro de Humanidade que se quer livre, feliz e mais à frente.


Rui Fonseca

Porto, 19 de maio de 2021

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